Uma tarde, na Primavera de 1936, quando eu
ainda era um rapaz de catorze anos, o meu pai levou-me a um espetáculo de
dança em Quioto. Só me lembro de duas coisas. A primeira, é que ele e eu éramos os únicos ocidentais no público;
tínhamos chegado da Holanda, onde morávamos, há apenas umas semanas, por isso
ainda não me tinha adaptado ao isolamento cultural, e sofria-o profundamente.
A segunda, era que após meses de estudo
intensivo da língua japonesa me senti
feliz por descobrir que conseguia perceber fragmentos das conversas que ia
ouvindo.
Quanto às jovens mulheres japonesas a dançar
no palco diante de mim, não me lembro de nada sobre elas a não ser de uma vaga
impressão de quimonos de cores
berrantes. Era certo que não tinha possibilidades de saber que, num
tempo e num espaço tão distantes quanto a cidade de Nova Iorque a cerca de
cinquenta
anos no futuro, uma delas iria se tornar uma
boa amiga, e ditar-me as suas memórias extraordinárias.

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